Corte de verbas ameaça sustentabilidade de organizações
Os cortes promovidos pela administração do Donald Trump na ajuda externa dos EUA colocam em xeque o funcionamento de diversas instituições humanitárias no Brasil já em 2026. Relatos apontam que entidades históricas — como Cáritas-RJ, referência há décadas no acolhimento de refugiados — enfrentam a pior crise de sua história, devido ao fim do apoio financeiro vindo dos Estados Unidos.
De acordo com a coordenadora do programa de acolhimento da Cáritas, “nunca vivemos nada parecido”: sem os recursos vindos do exterior, a instituição perdeu capacidade de pagar salários e garantir serviços básicos a refugiados.
Cortes repercutem em serviços essenciais e expulsam refugiados do sistema de apoio
A retração financeira obrigou o fim de um auxílio emergencial vital para imigrantes recém-chegados — incluindo apoio para alimentação, aluguel e cuidados médicos. Também houve atraso no início de cursos de português gratuitos, e parte da equipe foi demitida.
Para o ACNUR Brasil, a paralisação de recursos internacionais representa uma redução drástica na capacidade de atendimento: a agência, segundo dados internos, cortou quase 25% de seu orçamento global, fato que impede que cerca de 270 mil pessoas que precisavam de apoio continuem sendo assistidas.
O acúmulo da crise atinge de modo particular refugiados de diversas nacionalidades que dependiam da combinação de apoio material, orientação e integração social. Em 2025, a Cáritas atendeu pessoas de mais de 78 nacionalidades — um retrato da diversidade dos fluxos migratórios e da importância dessas redes de acolhimento.
Outras iniciativas sociais e de diversidade também anunciam encerramento
Não são apenas entidades de acolhida a refugiados que sofrem. Centros de apoio a populações vulneráveis, especialmente ligados a causas sociais, de diversidade ou direitos humanos, também estão condenados à interrupção. Um exemplo citado é a Casa 1 — espaço cultural e de acolhida LGBTQIA+ — que anunciou que encerrará suas atividades em abril de 2026 por falta de financiamento.
O diretor institucional da Casa 1 assinalou que a nova conjuntura política dos EUA, marcada por discursos contrários à diversidade, reforçou o corte de fundos internacionais, deixando organizações como a dele sem perspectiva de continuidade.
Uma revolução na política de ajuda externa dos EUA e o colapso da USAID
A raiz desse cenário se encontra na decisão do governo Trump de reestruturar drasticamente a ajuda externa dos Estados Unidos. A USAID — principal agência de cooperação internacional e desenvolvimento — foi praticamente extinta em 2025, com 83% de seus programas cancelados, conforme anunciado pelo governo.
A descontinuação abrupta dos repasses para ajuda internacional, combinada com a suspensão de programas considerados vinculados a pautas de diversidade, inclusão e programas sociais mais amplos, provocou um colapso em organizações que dependiam diretamente da agência ou de seus desdobramentos.
No Brasil, o impacto da suspensão da USAID foi identificado como especialmente grave: segundo levantamento da Sitawi — Finanças do Bem, muitas organizações perderam de 30% a 50% de seu orçamento previsto para 2025, e pequenas ONGs estão entre as mais atingidas.
O que está em jogo: vidas, acolhimento e missões sociais
O corte de verbas internacionais não representa apenas uma reorganização administrativa — pode traduzir-se em vidas prejudicadas, pessoas desabrigadas, refugiados sem amparo, e comunidades vulneráveis sem apoio. Muitas organizações já alertam para “um vazio” iminente, com o risco de reverter décadas de trabalho social e humanitário.
Para além da crise financeira, há o risco de enfraquecimento de redes de proteção social que vinham desempenhando papel central contra a desigualdade, o preconceito, a fome e a vulnerabilidade.
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